Novas informações sobre o 1 Cruzado Novo com a Cruz de Cristo

Autor: Emerson Pippi

1 Cruzado Novo de 1990 – Cruz de Cristo – Imagem  do acervo do autor

Em 1990, Fernando Collor havia se tornado o primeiro presidente eleito pelo povo depois de 30 anos e, um dia após sua posse, anunciava, junto com a ministra Zélia Cardoso de Melo o Plano Brasil Novo, mais conhecido como Plano Collor. Terminava aí a curta trajetória do Cruzado Novo, que seria substituído pelo renascido Cruzeiro, na proporção de NCz$ 1 = Cr$ 1,00.

Em um cenário de alta produção e constantes alterações de cédulas e moedas, algumas inconsistências numismáticas foram criadas. O Cruzado Novo teve vigência apenas nos três primeiros meses de 1990 e algumas moedas desse ano foram produzidas sem que houvesse tempo para saírem da Casa da Moeda e serem colocadas em circulação. Seria essa a situação da moeda de 1 Cruzado Novo de 1990, conhecida como Cruz de Cristo. Essa linda peça jamais entrou em circulação, atropelada pela mudança do padrão monetário executada em março daquele ano. Nesse caso em especial, há uma divergência entre os numismatas quanto a sua classificação. Alguns acreditam que seria um ensaio monetário, ou seja, foram produzidas poucas unidades com o intuito de testar a execução do novo modelo ou que fossem enviadas para aprovação das autoridades competentes. Outra vertente acredita que uma grande quantidade dessa moeda foi fabricada e estava prestes a ser lançada quando o Plano Collor decretou o fim do Cruzado Novo.

O Livro das Moedas do Brasil (2018) categoriza a Cruz de Cristo como ensaio, mas não traz maiores informações de quantidade. Segundo Cláudio Amato, um dos autores do livro, “Essa moeda é um Ensaio. Não foi produzida em grande série, nem em quantidade suficiente para circulação” (NEVES e AMATO, 2018, p. 427). Já no Livro Bentes de Moedas do Brasil (MALDONADO, 2018, p.704) esta peça é classificada como uma cunhagem regular que foi descontinuada antes de entrar em circulação e, em seguida, teve seus exemplares destruídos. O mesmo livro também não tem a informação da quantidade total que chegou a ser cunhada, mas estima que há 15 unidades comprovadamente em coleções particulares e que teriam sido salvas do derretimento, provavelmente por funcionários da Casa da Moeda. Porém, ele ressalva corretamente, que pode haver outros exemplares ainda não conhecidos. Em pesquisa informal, alguns numismatas avaliam números próximos: Adelânio Ruppenthal comentou que “são 13 unidades existentes”. Já Leandro Ness citou o número de 14 peças sobreviventes. Claudio Amato foi mais otimista e disse que são “no mínimo 20!”.

 

Mais exemplares encontrados

Um novo fator que revelamos agora é que realmente existem muito mais exemplares dessa moeda que sobreviveram ao derretimento. Em pesquisa junto ao Museu de Valores do Banco Central, em Brasília, levantamos a informação que existem comprovadamente mais 41 peças da Cruz de Cristo na reserva técnica daquela instituição. Não há documentação específica, mas o Museu informou que o lote veio da Casa da Moeda.

A partir dessa descoberta, os livros e catálogos brasileiros precisarão de revisões, acrescentando esse lote à contagem de peças. O livro Bentes que afirma serem 15 existentes até agora, poderia, em suas próximas edições, alterar para 56 o número total das moedas Cruz de Cristo conhecidas. Logicamente ressalvando que 41 estão no acervo em Brasília.

Já quanto ao valor de comércio, acreditamos que não sofra nenhuma alteração a partir desse artigo, pois as moedas do Museu de Valores estão “congeladas”, ou seja, fora do mercado.

Infelizmente, não encontramos em nenhum lugar indícios sobre a quantidade total que foi fabricada pela Casa da Moeda. Não conseguimos a demanda de produção vinda do Banco Central e nem o relatório de serviço da Casa da Moeda. Esse tipo de hiato documental, infelizmente, é normal quando buscamos dados junto ao BACEN e CMB.

Imagens das 41 peças da Reserva Técnica do Museu de Valores – Imagens do acervo do autor gentilmente permitidas pelo BACEN

Outro detalhe técnico importante que precisa ser corrigido é sobre as especificações da peça.  O Livro Bentes descreve-a com diâmetro de 19,5 mm e peso de 2,83 g, entretanto a moeda está de acordo com o documento do Banco Central, tendo 20,5 mm de diâmetro e peso de 3,6 g. Com essas informações, percebe-se que os discos destinados à Cruz de Cristo podem ter sido utilizados para cunhagem de outra peça do meio circulante nacional, a saber, a peça de 1 Cruzeiro de 1990, popularmente chamada de “Bandeirinha”, que contém as mesmas especificações, sendo essa sua verdadeira sucessora.

 

A história oficial da peça

Conforme documento fornecido pelo Banco Central, em 5/10/1989 (Voto DIRAD-89/98) a Diretoria de Administração, entre várias determinações, propõe que:

– Sejam aprovadas as características gerais da moeda de 1 cruzado novo, cujo ingresso em linha de produção faz-se necessário para propiciar a desativação da linha de cédulas do mesmo valor, objetivando manter sob adequada carga de trabalho os equipamentos de impressão disponíveis pela CMB (especificações e leiaute em apenso). (BANCO CENTRAL, 1989)

Logo em seguida, em anexo, o mesmo documento traz as características gerais na nova moeda, a saber:

I – Temática do Anverso

– Representação alegórica da “Cruz de Cristo”, associada aos contornos do mapa do Brasil, em evocação a elemento temático presente nos cruzados portugueses que, nos primórdios da colonização, circularam no país.

II – Elementos do Reverso

– Dístico e legenda indicativos do valor

– A palavra “BRASIL”

– Representação do “Cruzeiro do Sul”

III – Demais características

– Matéria-prima: Aço inoxidável

– Diâmetro: 20,5mm

– Peso: A especificar

– Espessura: 1,2 / 1,3mm

 

Tais documentos mencionados são apresentados a seguir:

Trazer à tona esse documento revela o nascimento da moeda Cruz de Cristo, com a demanda de desenho e especificações do Banco Central. Também tomamos conhecimento que a inspiração do tema vem dos cruzados portugueses que por aqui circularam. Erroneamente a Cruz de Cristo já foi chamada de calvário por alguns. A demanda do Banco Central revela nitidamente que o tema da moeda de 1990 não tem nenhuma ligação com o “Calvário”, célebre ensaio do ano de 1695, mas sim com a Cruz da Ordem de Cristo dos cruzados portugueses.

Cruzado – Cruz de Cristo – Calvário

Neste momento, também se mostra interessante ressaltar que a moeda de 5 centavos de 1990, que traz a imagem do pescador, também é um caso parecido com o da Cruz de Cristo. A diferença é que parte de sua produção chegou a ser posta em circulação. Com cunhagem registrada de 934 mil de unidades, essa peça teve menor quantidade distribuída na rede bancária. Lembramos que a quantidade produzida declarada não é, necessariamente, igual à quantidade colocada em circulação. Tal moeda raramente era encontrada no comércio. Hoje, um exemplar dela é comercializado por cerca de R$ 250, sendo um valor muito superior ao que alcançaria normalmente se quase um milhão de unidades produzidas tivessem sido integralmente colocadas em circulação.

 

O contexto histórico

Entre os anos de 1986 e 1988 o governo de José Sarney criou três planos econômicos para tentar conter a hiperinflação, assim como recuperar a imagem do país perante os investidores estrangeiros. Os objetivos não foram alcançados e os brasileiros conviveram com congelamentos de preços, desabastecimento, ágios, desequilíbrio cambial e filas para poder comprar leite, carne e outros gêneros alimentícios básicos.

Para conquistar a sonhada e necessária estabilização econômica, foi lançado em fevereiro de 1986 o Plano Cruzado, do ministro Dílson Funaro, que cortou três zeros de Cruzeiro e instituiu uma nova moeda, o Cruzado. Uma das medidas implantadas foi o congelamento dos preços. O governo pediu à população auxílio para verificar se o comércio cumpria a determinação, surgindo aí os “Fiscais do Sarney”. Logo em seguida, em novembro de 1986, veio o Plano Cruzado II e, em 1987 o Plano Bresser, sendo este lançado pelo ministro Luiz Carlos Bresser Pereira. Os resultados dos planos foram satisfatórios apenas por curto prazo e invariavelmente o “dragão da inflação” retornava para queimar as economias das brasileiras e dos brasileiros, como o presidente José Sarney chamava os cidadãos em seus discursos.

O ministro Bresser Pereira havia sido uma indicação do PMDB e renunciou quando percebeu que não era totalmente apoiado por Sarney. Em seu lugar, tomou posse em 6 de janeiro de 1988 o novo ministro da Fazenda, Maílson da Nóbrega, que prometeu não tomar nenhuma medida extravagante. Segundo ele, em suas mãos, a economia brasileira não teria grandes surpresas e haveria controle inflacionário, fazendo uma política “feijão com arroz”. Entretanto, o ano de 1988 fechou com uma inflação de 1,037.56%, segundo o INPC. Apelando para a velha escaramuça de fazer um planejamento milagroso que tiraria o país do buraco, em 15 de janeiro de 1989 Maílson da Nóbrega lançou o Plano Verão e com ele o Cruzado Novo (NCz$). A nova moeda cortaria três zeros do antigo Cruzado (Cz$).

O recém-nascido Cruzado Novo foi massacrado pela inflação e teve vida curta, sendo o padrão monetário que menos tempo durou no Brasil. A nova moeda teve vigência por apenas 14 meses, de 16/01/1989 até 15/03/1990, quando terminou o mandato de José Sarney. Obviamente, todas as promessas e objetivos de Maílson da Nóbrega não foram concretizados. O ano de 1989 fechou com números ainda piores que os do ano anterior, tendo uma hiperinflação de 1.782,90%. O último mês do governo Sarney e Maílson foi março de 1990 e alcançou a incrível taxa inflacionária de 82,39%, ou seja, quase 3% ao dia, na média. Se considerarmos os últimos 12 meses desse mandato, levando em conta o período de março/89 a março/90, tivemos o extraordinário número de 6.390,52% de inflação, segundo o INPC.

Com estas constantes mudanças do padrão monetário durante esses poucos anos, era quase impossível para a Casa da Moeda desenvolver projetos visuais avançados para o meio circulante nacional. As moedas do Cruzado, por exemplo, tinham um design extremamente simples, com o brasão nacional sendo o anverso comum para todos os valores. Nesse período apenas as moedas da série AXÉ tiveram um projeto mais ambicioso, comemorando os 100 anos da abolição da escravatura, em 1988. Era constante a necessidade de novas moedas e cédulas com valores maiores, para tentar alcançar a inflação e suprir a necessidade de abastecer a população.

Com a implantação do Cruzado Novo, as moedas continuaram sendo produzidas em aço inox, mas tiveram desenhos mais aprimorados. É de 1989 a bonita série dos tipos regionais brasileiros, sendo retratados o boiadeiro, jangadeiro, garimpeiro e a rendeira. Essa série de moedas também trouxe a inovadora técnica de gravar as estrelas na posição da linguagem braile, para facilitar o manuseio pelos deficientes visuais.

 

Bibliografia

AMATO, Claudio e NEVES, Irlei S. Livro das Moedas do Brasil, 15ª edição, São Paulo, 2018

MALDONADO, Rodrigo.  Livro Oficial das Moedas Brasileiras, Itália, Bentes Edizione Numismatiche, 2018.

A contextualização histórica tomou por base texto do Banco Central do Brasil: https://www.bcb.gov.br/detalhenoticia/355/noticia)

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Comments(1)

  1. Avatar

    Parabéns pelo artigo. Espero que os colecionadores leiam. Estamos muito carentes de leitores, não só sobre o nosso assunto predileto, mas como também sobre todos os outros. Não obstante o artigo joga bastante luz sobre estas moedinhas. Na minha concepção tenho estas moedas como peças de circulação normal, porém não foram emitidas. E digo isto por uma simples razão. Para o BC – vide glossário na página do BC – uma moeda ou cédula somente é reconhecida como tal quando é colocada em circulação, ou seja, EMITIDA. Assim, as moedas em questão podem ter uma classificação diferente, mas jamais serão ensaio. Foram cunhadas, sim, por encomenda do BC, mas não entraram em circulação, não foram emitidas; tal como as cédulas da Baiana das séries roubadas da agência do Banco Central em Salvador, embora estas cédulas tenham sido desmonetizadas pelo BC.

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